NEW LIFE | Ana Soares

New Life

NEW LIFE | Ana Soares

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“… não controlo a vida. Bolas, tem custado a aprender mas é a lição que cá está. E que só sofro mais se tentar controlar. Não é possível. A vida – viver – é dura, tem coisas menos boas. Sofremos. Lutamos todos os dias. Mas tem coisas maravilhosas. É um milagre.”

As mudanças que acontecem na vida, nem sempre acontecem pela nossa vontade e decisão. Acontecem coisas boas que nos fazem mudar, mas acontecem também coisas menos boas que nos obrigam a mudar (e muitas vezes é para melhor). É inevitável não os fazermos, mas relembramos com a Ana que os planos são assuntos delicados, que a vida tem o seu jeito de nos levar para o caminho que quer, quando quer.

 

Fotografia de António Pedro Santos

Quem é a Ana?

Já fui outra coisa mas neste momento sou uma quarentona a lidar com os 40, com tudo o que isso implica e com esse processo de mudança. Sou essencialmente uma aluna de Yoga aplicada, alguém que procura uma vida mais saudável por questões de saúde e que lida diariamente com os seus desafios como toda a gente. Alguém que está a tentar muito – finalmente – deixar de ser jovem e ser uma mulher adulta 😉

 

Em criança, quais eram os teus sonhos para a vida adulta?

Talvez por influência das bandas desenhadas que lia do super-homem e do homem-aranha, sonhei sempre em trabalhar em jornais. Escolhi a formação de Designer Gráfico e direccionei o meu percurso para os jornais diários. Cumpri esse sonho.

A meio do caminho sonhei outra coisa. Sempre pratiquei Yoga e sempre foi um local, espaço, tempo em que fui (sou) verdadeiramente feliz. A dada altura dei por mim a dizer: um dia quero passar todo o tempo no tapete.

Referes no teu site, Inspira.Yoga, que descobriste o Yoga em 1999. Quem era a Ana no período anterior?

Antes de descobrir o Yoga – e continuo a descobrir – era uma jovem sem pés na terra e com a cabeça na lua. Não tinha muito foco mas era e sempre fui extremamente funcional.

Nessa altura, estavas a desempenhar alguma actividade profissional?

Trabalhava como Designer Gráfica. Na altura julgo que no jornal “A Capital” ou estava a trabalhar como freelancer. Por aí.

O que te fez querer fazer a formação de instrutora de Yoga? Avançaste com esta ideia por quereres dar aulas de Yoga e reconstruir a tua vida profissional, ou simplesmente foste à procura de uma forma de te descobrires a ti mesma?

Como dizia, a dada altura era tão feliz a praticar que queria que isso fosse a minha vida. Entrei na formação para crescer enquanto praticante e porque tinha um sonho lá mais para a frente de um dia dar aulas. Quis a vida (a doença) que a minha vida profissional nos jornais chegasse ao fim exactamente quando estava a meio da formação. Uma coisa levou à outra. Não sei mas acho que não houve um plano. Em 2016 com o diagnóstico da doença, acabaram-se os planos.

 

Porquê o nome de Miss Ansiedade?  

Estou diagnosticada há 3 anos mas estou convencida que já tinha a doença manifestada há outros 3, 6 no total, portanto. Nos primeiros 3 anos tinha muitos sintomas, muitas queixas. Andei de médico em médico e o diagnóstico foi sempre: stress, ansiedade. Aliás, cheguei a ser medicada. Quando o diagnóstico chegou, curiosamente, chegou a paz no meio da guerra.

Entretanto já era a Miss Ansiedade. Foi o meu marido que me baptizou.

Tal como explicas no teu site, em 2016 foste diagnosticada com Esclerose Múltipla, numa altura em que deverias estar a terminar a formação de instrutora de Yoga. Como foi a relação entre o Yoga e a EM?

O Yoga ajudou-me a recuperar do valente surto que levou ao diagnóstico. Fiquei com o lado direito comprometido, dos pés à cabeça. Também devido aos exames e à medicação que fiz, no 1º, 2º mês após o internamento estive quase sempre deitada.

Tentei ir para o tapete e caí mas logo que consegui estar mais estável de pé, fiz uma aula. Depois fiz em casa. O Yoga dá-me tudo o que a doença tenta tirar – e ameaça tirar a médio-longo prazo: equilíbrio, energia, ânimo.

Na prática desafio o meu corpo a estar presente e a reagir, o que no dia a dia é exactamente tudo o que ele não quer fazer. Para além disso, a EM é uma doença muito depressiva e o Yoga ajuda exactamente estados de depressão e ansiedade.

Sou mesmo feliz no tapete. Mesmo quando vejo as minhas dificuldades de ano para ano a mudarem.

Grande parte das pessoas sentem que houve um momento no seu passado em que a vida mudou. Esse momento, na tua vida, foi o diagnóstico da EM?

Sem dúvida. Fui diagnosticada com 38 a fazer 39. A somar, no caminho fiz 40. Descobri, com ambas as coisas, a minha mortalidade e a mortalidade dos meus. Ainda estou a processar.

A minha vida mudou para melhor, embora todos os dias sem excepção, haja alguns minutos em que fico zangada e triste por ter EM.

O que é que o Yoga te ensinou?

Ainda ensina, todos os dias sempre que piso o tapete. Ensina-me tranquilidade, resiliência, paz. Ajuda-me a ter equilíbrio (emocional mas muito físico). Ensina-me a lidar com os desafios.

Não quero dizer com isto que aprendi, continua a ensinar.

E neste momento concreto, para alguém com EM, cada prática feita é simplesmente uma vitória.

O que é que a EM te ensinou?

Que não controlo a vida. Bolas, tem custado a aprender mas é a lição que cá está. E que só sofro mais se tentar controlar. Não é possível. A vida – viver – é dura, tem coisas menos boas. Sofremos. Lutamos todos os dias. Mas tem coisas maravilhosas. É um milagre.

Neste momento és professora de Yoga a tempo inteiro ou mantens outra actividade?

Só professora a part-time, não tenho energia para mais e dou prioridade às minhas aulas enquanto aluna.

Como defines a palavra liberdade?

Saúde. Mas também harmonia com o nosso corpo físico e emocional. Cada vez que o nosso corpo é um entrave à nossa vida, não há liberdade.

Tens algum livro, ou outro recurso, que queiras recomendar a quem neste momento está a mudar a sua actividade profissional, a sua vida, ou a seguir o que sempre sonhou?

Não tenho nenhum em particular mas procurei muitas histórias e exemplos semelhantes. Ler muito sobre exemplos de outras pessoas, principalmente mulheres, ajudou-me a ter coragem e calma. Alguma pelo menos.

Se te pedisse para fechares os olhos e pensares em ti daqui a 10 anos, o que vês?

Não consigo projectar-me para o futuro. Ando aliás em terapia para resolver isso. Baby steps. A doença deixou marca: eu tinha planos, tudo “controlado” e um dia entrei no hospital e quando saí, tudo tinha mudado, para sempre. Percebi há uns tempos atrás que tinha dificuldade em fazer projectos para o futuro. Coisas tão simples como projectar pendurar os quadros na parede… por isso não sei. Mas o Yoga estará na minha vida sem dúvida.

English Version

“… I don’t control life. It’s been hard to learn but that’s the lesson here. And I only suffer more if I try to control. It’s not possible. Life – living – is hard, has less good things. We suffer. We fight every day. But there are wonderful things. It’s a miracle.”

The changes that happen in life do not always happen by our will and decision. Good things happen that make us change, but less good things happen that make us change (and often for the better). We remind with Ana that plans are delicate matters, that life has its way of taking us for a certain path.

 

Photo by António Pedro Santos

Who is Ana?

I’ve been something else but right now I’m a forties dealing with 40, with all that this implies and the process of change. I am essentially an applied Yoga student, someone who seeks a healthier life for health issues and deals daily with her challenges like everyone else. Someone who is trying hard – finally – to stop being young and being a grown woman 😉

As a child, what were your dreams for adulthood?

Perhaps influenced by the comic books I read about Superman and Spiderman, I always dreamed of working in newspapers. I chose Graphic Designer training and directed my route to the daily newspapers. I fulfilled this dream.

Halfway I dreamed something else. I have always practiced Yoga and it has always been a place, space, time when I was (am) truly happy. At one point I found myself saying: One day I want to spend all my time on the rug.

You refer in your website, Inspira.Yoga, that you discovered Yoga in 1999. Who was Ana in the previous period?

Before I discovered Yoga – and I continue to find out – I was a young woman with no feet on earth and her head on the moon. I didn’t have much focus but it was and I was always extremely functional.

Were you doing any professional activity at that time?

I worked as a Graphic Designer. At the time I think in the newspaper “A Capital” or was working as a freelancer. Around.

What made you want to do yoga instructor course? Have you come up with this idea because you want to teach yoga and rebuild your professional life, or just looking for a way to discover yourself?

As I said, at one point I was so happy to practice that I wanted this to be my life. I started the course to grow as a practitioner and because I had a dream, later in life, to teach. Life wanted (the disease) that my professional life in newspapers would come to an end just as I was in the middle of the course. One thing led to another. I don’t know but I don’t think there was a plan. In 2016 with the diagnosis of the disease, the plans were over.

Why the name of Miss Anxiety?

I have been diagnosed for 3 years but I am convinced that I had the disease manifested for another 3, 6 in total therefore. In the first 3 years I had many symptoms, many complaints. I went from doctor to doctor and the diagnosis was always: stress, anxiety. In fact, I got to be medicated. When the diagnosis arrived, curiously, peace came in the middle of the war.

But i was already Miss Anxiety. It was my husband who baptized me.

As you explain on your website, in 2016 you were diagnosed with Multiple Sclerosis, at a time when you should be finishing Yoga instructor training. How was the relationship between Yoga and MS?

Yoga helped me recover from the brave outbreak that led to the diagnosis. My right side was compromised, from head to toe. Also due to the exams and the medication I did, in the 1st, 2nd month after the hospitalization I was almost always lying down.

I tried to go to the yoga mat and fell but as soon as I was more stable standing, I took a class. Then I did it at home. Yoga gives me everything that the disease tries to take – and threatens to take in the medium to long term: balance, energy, cheer.

In practice I challenge my body to be present and reacting, which in everyday life is exactly what it does not want to do. In addition, MS is a very depressive disease and Yoga helps exactly states of depression and anxiety.

I’m really happy on the mat. Even when I see my difficulties from year to year changing.

Most people feel that there was a time in their past when life changed. Was that moment in your life the diagnosis of MS?

No doubt. I was diagnosed with 38 doing 39. In addition, on the way I made 40. I found out, with both things, my mortality and the mortality of mine. I’m still processing.

My life has changed for the better, although every day without exception, there are a few minutes when I get angry and sad to have MS.

What did Yoga teach you?

He still teaches every day whenever I walk the carpet. Teach me tranquility, resilience, peace. It helps me to have balance (emotional but very physical). Teach me how to handle the challenges.

I do not mean by this that I learned everything, yoga continue to teach me.

And right now, for someone with MS, every practice done is simply a victory.

What did MS teach you?

That I don’t control life. Hell, it’s been hard to learn but that’s the lesson here. And I only suffer more if I try to control. It’s not possible. Life – living – is hard, has less good things. We suffer. We fight every day. But there are wonderful things. It’s a miracle.

Are you a full-time yoga teacher at this time or do you have another activity?

Only part-time teacher 😉 I have no energy for more and I give priority to my classes as a student.

How do you define the word freedom?

Health. But also harmony with our physical and emotional body. Each time our body is an obstacle to our life, there is no freedom.

Do you have a book, or other resource, that you want to recommend to anyone who is currently changing his or her business, life, or following what they have always dreamed of?

I have none in particular but I searched for many similar stories and examples. Reading a lot about examples from other people, especially women, helped me to have courage and calm. Some at least.

If I asked you to close your eyes and think of yourself 10 years from now, what do you see?

I can’t project myself into the future. I’m actually in therapy to work it out. Baby steps. The illness left a mark: I had plans, everything “controlled” and one day I entered the hospital and when I left, everything had changed, forever. I realized a while ago that I had dificulties in making projects for the future. Simple things as hanging pictures on the wall… so I don’t know. But Yoga will be in my life no doubt.

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